segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Voltou de Angola numa traineira...

No dia em que devia embarcar no navio ‘Uíge’, fugido às perseguições aos brancos de Luanda, Florindo Bota mudou de ideias: pegou no seu pequeno barco de pesca e voltou a Portugal pelos próprios meios. Passou 33 dias no mar, dos quais 31 em rota, lutando contra os temporais e a iliteracia. Foi pescador toda a vida e sempre trabalhou na mesma traineira que trouxe de África. E, quando se tratou de comprar uma nova embarcação, deu-lhe o mesmo nome: ‘Marlene’ – o nome do barco que lhe dera a liberdade e o sustento.


A história de um homem confundindo-se com a história de um barco. No Verão de 1975, Florindo Cláudio Bota, pescador e emigrante em Angola, decidiu fugir de uma forma inusitada às perseguições que se acentuavam sobre a população branca na recém-proclamada República Popular de Angola: ao leme do seu pequeno barco de pesca, uma traineira em ponto pequeno, com escassos 10,40 metros de comprimento e 85 cavalos de potência, sem cozinha nem casa de banho. Passou 33 dias no mar, enfrentou nortadas, perdeu-se várias vezes, esteve perto de sucumbir à fome e à sede – mas chegou.

Os românticos veriam nessa sua viagem louca a metáfora perfeita para o fim do Império: partimos em pequenos barcos no século XV, num pequeno barco voltámos mais de 500 anos depois. Ele não. Olha distante, sobranceiro, e remata como que num ralhete: “Salvei a minha enxada.” O ‘Marlene’ – assim se chamava a traineira – haveria depois de acompanhá-lo durante mais de vinte anos em Portugal, primeiro no arrasto na Costa de Caparica e depois na arte do certo no Algarve. Com ele garantiu Florindo o sustento da família e nele se fizeram homens os seus dois filhos, hoje também pescadores. E, quando finalmente se desfez dele, há oito anos, foi como se separasse de um familiar.

Em 1974, com o 25 de Abril, a espada de Dâmocles ergueu-se sobre as cabeças dos antigos colonos do Ultramar português. Mais cedo ou mais tarde teriam de regressar à Pátria. “Em 1975 a situação complicou-se”, recorda Florindo Bota. “Éramos maltratados, havia perseguições. A minha mulher chegou a ir à pesca comigo, para o mar alto, só para não ficar sozinha em casa com as crianças.” Decisão inevitável: voltar a Portugal. Nascido em Quarteira, no Algarve, Florindo nascera pescador e decidira mudar-se para Angola logo a seguir à tropa, aproveitando a presença de vários irmãos da mulher em Luanda. “Vivíamos na ilha. Embora hoje se tenha uma vida melhor em Portugal, naquela altura vivíamos melhor do que em qualquer momento até então”, conta. “A pesca era perigosa: fazíamos arrasto de camarão, o mar era traiçoeiro e passávamos duas a três horas por dia a puxar as redes sem qualquer defesa. Mas ganhávamos dinheiro e dávamo-nos muito bem com os africanos. Tivemos pena de vir embora.”

Em Abril, os dois filhos mais novos, um rapaz nascido ainda no Algarve (Aurélio) e uma rapariga nascida já em Luanda (Sónia), voltaram de avião com uma tia. A 24 de Agosto partiria de Luanda o navio ‘Uíge’, carregado de retornados – e então Florindo, a mulher (Olávia) e o filho mais velho (Álvaro) voltariam com eles. Os bilhetes estavam comprados. Poucos dias antes do embarque, porém, Florindo Bota mudou de ideias. “Disse à minha mulher: ‘Vou no barco. Ou chegamos lá os dois ou não chega lá nada.’” Olávia e Álvaro partiram no dia combinado. Florindo foi comprar mapas, pedir indicações sobre rotas e fugiu nesse mesmo dia para o mar. “Comprei as cartas à Marinha portuguesa e depois fui ter com o comandante do navio ‘Uganda’, da Sociedade Geral, que me desenhou os rumos e ainda me escreveu três folhas à máquina, com indicações. Eu leio mal, porque nunca fui à escola, mas o que tinha aprendido na tropa chegava para perceber aquilo. Deixei-lhe os meus dois cães, o ‘Rover’ e a ‘Boneca’, dois pastores-alemães. Gostava muito de reencontrar um dia esse comandante ”, conta Florindo.

“Entretanto, o MPLA viu que eu tinha o barco cheio de gasóleo e começou a fazer perguntas. Tive de sair para o mar imediatamente. Levei um africano que trabalhava há nove anos comigo na pesca, o Gabriel. Era da UNITA e estava a ser perseguido. Veio até Portugal. Da última vez que o vi estava a trabalhar numa casa dos Comandos, perto de Faro. Estava muito em baixo. Penso que está num lar qualquer ”

Durante dois dias ao largo de Luanda, Florindo veio a receber a companhia de outros três homens, um cunhado e dois amigos algarvios, cada um no seu barco – e nenhum dos barcos com mais de 13 metros. A 26, a caravana parte em direcção a Portugal. Só Florindo tinha as rotas e era ele quem vinha à frente. No mapa, o capitão do ‘Uganda’ havia desenhado um trajecto de 27 dias: onze dias até à Costa do Marfim, a direito, cortando o Golfo da Guiné; seis dias ao largo da costa até Dacar, no Senegal; quatro dias no sentido de Vila Cisneiros, no Sara espanhol; dois dias em direcção às Canárias; e, finalmente, quatro dias até ao Algarve. “Demorámos 31, porque tivemos várias chatices e contratempos. Em frente à Serra Leoa, apanhámos um temporal e perdemo-nos todos uns dos outros durante três dias e três noites. Um dos barcos avariou e teve de vir a reboque. Outro ficou sem luz. A partir de certa altura, viemos todos atados por cabos, em comboio”, conta.

As três folhas dactilografadas pelo comandante comercial viriam a ser essenciais: um pequeno memorando com rotas, localização de faróis e baixios perigosos, tempos limite para cada etapa e regiões onde deveriam ser encontrados outros pescadores – e um sem número de chamadas de atenção a vermelho, referentes aos maiores perigos, com desenhos e tudo. “Chegámos a pensar que não conseguíamos. Mas depois parámos no Cabo Branco, para abastecer, e encontrámos o grande navio de pesca ilha de Santa Luzia. Fomos a bordo comer uma refeição quente, pois estávamos esfomeados. E o capitão decidiu abortar a missão de pesca a escoltar--nos até ao Algarve. A partir daí, viemos bem.”

Do Santa Luzia, Florindo mandou à família um telegrama. “Suspiraram de alivio. Já esperavam o pior”, recorda. “E chegámos bem. Magros, muito barbudos, mas nenhum doente.” E Florindo continuou pescador. “Hoje, infelizmente, a pesca já não dá nada. Não é rentável. Tenho seis netos e fico muito contente por estarem todos a estudar. O peixe é pouco, tirar uma cédula marítima é o cabo dos trabalhos, não há fábricas – isto não é vida para ninguém”, diz. “Mas ainda tenho saudades do mar e, apesar de estar reformado, de vez em quando ainda lá dou um salto. Trabalho com os meus filhos e, normalmente, fico no armazém a tratar das redes. Sempre com saudades.”

Na sua casa de Quarteira, as cartas marítimas e o memorando do capitão do ‘Uganda’ continuam guardados, tentando resistir à traça. Na sala, sobre a lareira, destaca-se uma foto do ‘Marlene’, com Florindo ao leme, já nos anos 80. “Chamámos-lhe ‘Marlene’ porque tínhamos um amigo a quem o Registo Civil impedira de dar esse nome à filha, dizendo que era francês”, conta. “Mas o nome era o menos. Cheguei a fazer 70 horas seguidas ao leme, a comer conservas e bolachas de água e sal. E isso nunca se esquece...”

MARLENE, ÁLVARO E AURÉLIO

Há oito anos, beneficiando dos incentivos do Estado, Florindo Bota abateu o ‘Marlene’. “Precisávamos de um barco maior, por causa dos meus filhos. E mandámos construir um, a que também chamámos ‘Marlene’: uma traineira com 14,60 metros, motor de 190 cavalos – e já com cozinha, casa de banho e TV”, conta. Problema: desmantelar o barco original. “Custava-nos muito. Era um membro da família ” E então, como que por milagre, dois pescadores de Setúbal candidataram-se à sua compra. “Um barco abatido com subsídios só podia ser vendido para o estrangeiro. Mas era para o estrangeiro que eles o queriam. Precisamente para Angola, de onde o ‘Marlene’ vinha. E, agora, imagine-se: os dois homens chamavam- -se Álvaro e Aurélio, exactamente os nomes dos meus filhos. Incrível: o ‘Marlene’ voltava para Angola, com dois homens de nomes iguais a dois rapazes que se tinham feito homens nele”, lembra. “Vendemo-lo barato, mas até dado o levavam. Foi um alívio encontrá-los

FICHEIRO RNH Nº10

Nome: Florindo Cláudio Bota

Idade:66 anos

Naturalidade:

Quarteira

Profissão: pescador reformado.

in, Jornal Voz de Quarteira

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Não é preciso ser pescador ou filho de pescador para perceber o que este homem e outros que o acompanharam fizeram, gentes de Quarteira que sempre foram pescadores foram para terras distantes e em barquinhos de 10 metros encontraram o caminho de volta para a sua terra por mar.

Já me tinham contado isto, mas agora ao ler fiquei extremamente comovido.

O bom filho à casa retorna!

3 comentários:

João disse...

Venho informar que O Café da Avozinha foi alvo do ataque de alguém que não deve gostar muito do blog então durante algum tempo vou estar ausente, até conseguir resolver esta situação. A todos os nossos utilizadores muito obrigado.

Cumprimentos,

João Santos

keridalindinha disse...

Grande história!!! Adorei e vou ler novamente!
Beijo.

O Café da Avozinha disse...

É quase uma epopeia e material do qual se fazem filmes. Muita coragem tiverem esses homens em aventurar-se por esse mar a fora.

Abraços.